quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Ossário, 2006, Alexandre Órion, São Paulo.

Criaturas,

Lembram deste vídeo sobre grafite reverso que mostrei em aula, esse ano?
Veja o conteúdo completo na página OSSÁRIO - ARTE MENOS POLUIÇÃO, de Alexandre Órion. Extraí de lá o texto abaixo e o vídeo. Mas dê um pulo lá e confira também as fotos da intervenção urbana.

Abraço!

Fabio Vicente



O OSSÁRIO URBANO DE ORION

Alexandre Orion bate à porta da nossa consciência, com seu refinado grafite, para expor a morte oculta na vida vibrante da cidade de São Paulo. Na passagem subterrânea, entre a avenida Europa e a avenida Cidade Jardim, numa paciente e resoluta intervenção, Orion descobre para os olhos dos passantes o ossário que impregna as paredes do túnel. Caveiras se amontoam. Das cavidades dos olhos de tantos mortos a obra contempla os vivos, interroga os que por ali passam, interpela em silêncio a nossa omissão, o nosso conforto poluidor, o nosso "não sabia de nada".

Orion cria essas imagens descolando seletivamente daquelas paredes a película da negra fuligem que ali se depositou no curto tempo de existência daquele orifício da modernidade. Vai esculpindo caveiras na camada de fumo ali depositada pelo escapamento dos carros, até encontrar a cor natural das paredes. Retira a sujeira que nelas gruda, que gruda na nossa pele, nos nossos pulmões e nos nossos olhos para, no contraste entre o limpo e o sujo, trabalhar a sua criação, construir o seu discurso visual cidadão, gritar a sua liberdade no silêncio dos mortos. As imagens nascem da fuligem que fica. Arranca das paredes, nessa busca estética, a fuligem da nossa consciência urbana amortecida. Dá visibilidade à poluição solerte, dissimulada, traiçoeira. A poluição que mata.

Essas imagens nos falam de amor e de ódio. O amor pela cidade em que vivemos, o amor pela cidade que ela pode ser, o amor da utopia urbana, da cidade que é de todos e não só de alguns, o amor dos que, habitando a cidade, fizeram-na também habitante do próprio coração e da própria consciência. Quando não se ama o lugar da vida, não se vive, apenas se está ou se passa. Ódio, porque há consumo predatório da cidade por aqueles que a sujam, que cospem nela, que jogam lixo pelas ruas, que atiram papel no chão, saco de pipoca, copo de sorvete, maço de cigarro vazio, lata de cerveja e de refrigerante. Os que acham que são espertos porque se apropriam do que não lhes pertence, que pertence a todos. A condição humana não se expressa nessas manifestações de egoísmo. Alexandre Orion limpa pacientemente o negror da fuligem que mata, cuspida pelos carros na brancura da nossa liberdade e da nossa vida. Nas trevas da fuligem da incivilidade, sua obra é um manifesto esteticamente fino e belo.

Artista plástico e designer, o paulistano Alexandre Orion há dez anos semeia suas obras de arte nas paredes abandonadas da cidade. Nessas intervenções questiona o que a cidade faz consigo mesma, questiona o incivilizado desprezo pelo lugar em que vivemos. Expõe-se nas madrugadas frias para fixar por um instante o efêmero do seu grafite, para fazer a sua arte do instante, para revelar a delicadeza do que se despreza, para valorizar o que se deprecia. Fotógrafo, a fotografia preserva sua obra de rua, ameaçada pela fragilidade de muros e paredes, pela vulgaridade que a cerca. Sua obra é uma das vivas expressões da modernidade, artística e efêmera ao mesmo tempo, duradoura no significado e passageira na materialidade. Nos lugares em que pode ser vista, é vista num lampejo.

Tesouros da cidade não são apenas as obras que atravessaram o tempo, que até mesmo atravessaram a névoa densa do desamor pelo lugar do nosso dia a dia. Tesouros são também as muitas manifestações da criação humana sem o destino seguro da durabilidade e da permanência, como as dos museus e das praças. Deles nos lembraremos porque o belo e o que tem sentido os inscreveram na nossa memória. É nela que o efêmero se perpetua.

Falarão as próximas gerações através das nossas lembranças. Diremos aos nossos netos que um dia, no nosso tempo, alguém saiu pela cidade proclamando a beleza da vida, para que eles pudessem ter o seu tempo e o tempo de seu sonho. E eles nos invejarão por não terem tido o privilégio de ver a obra de arte nascendo e ficando nessa que é a mais duradoura das galerias, aparentemente perdida nas ruínas do tempo que flui.

José de Souza Martins - Professor de Sociologia
Publicado em O Estado de S. Paulo, 23 de setembro de 2006, p.C9.

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